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Abissais

1. Haveria a propriedade intriínseca do que nos faz distraídos a ponto de perdermos a estação na qual descer? A constante que, se presente, furta a atenção que evitaria acabar em outra cidade, outro país? Penso na condição solitária e não em ser distraído por alguém. Daí seria a qualidade de algo de que se teve notícia/ experiência/ e ficou retido na imaginação, passível de ser evocado. E que ao sê-lo, provocaria o pensamento do destino esperado. Trata-se do efeito invariável a quando / só / está-se em movimento. Físico, de modo ideal, como levado pelas pernas / por automóvel / por trem. Mas, por analogia, a quando se perde o tempo de sair da inércia para alcançar uma pessoa, um objeto ou um estabelecimento prestes a fechar. Acredito que há. O que seria?

2. A série que a Ni da Costa nos apresenta, nesta individual, concilia sua habitual leveza e wit com temática misteriosa nova às suas preocupações. As telas são construídas por transposição, segundo lógica de gravura. As pinturas são de imaginação invertida e acontecem no plástico, sendo que apenas retoques são acrescentados. Os acidentes que dramatizam as representações são verídicos e esperados. Isso para que as fluorescências adquiram tom e semitom. A pressão do ambiente é completada por pequenos seres vívidos bem frágeis, que não sofrem queima. Neles se encontra toda sorte de materiais e ornamentos de suas presenças.

3. Achou-se que com a técnica se dissolveriam os segredos. Se tudo pudesse ser visto, então nada mais estaria escondido. Pois bem, a visibilidade não corrompeu a experiência, como não tornou o gosto obsoleto. Apenas tornou premente o ceticismo para se aprender a distinguir entre as especificidades do autêntico e das falsificações. A plena visibilidade tonou tudo mais arriscado e excitante. A questão não é mais descobrir o em si / ou na direção dele se mover/ mas fazer um olho para os detalhes que tornam a vida espantosa. A plena visibilidade devolveu dignidade ao falso, posto ter tornado explícito o que compõe a própria autenticidade. Não estando de um lado o verdadeiro e falso numa das bandas e na outra a falsificação como má-fé.

4. O abissal é tal propriedade intrínseca. Ele diz respeito à capacidades dos seres habitarem profundidades assustadoras ou portarem tal abismo dentro de si. Assim, não é qualquer profundidades que nos faz perder o momento de descer / desembarcar / que pode ser dita abissal. A autenticidades, duplo do verdadeiro, tem disso, nela se pode ir tão fundo que a pressão quase torna a vida impossível. Mais deliciosamente, quão mais desafiadoras as condições, maior é a cumplicidade com o falso. O abissal é repleto de mimetismos, metamorfoses e dissimulações. É necessário gosto para sabê-lo presente e para adaptar o olho para entender os seus moradores e táticas. As falsificações, por outro lado, não possuem e não resistem às profundidades abissais.

5. As pinturas da Ni da Costa nos levam a ambientes aquáticos de diferentes funduras. As pessoas mostradas pela metade são, obviamente, de suas criaturas, as que submergem com mais dificuldade, em todos os sentidos. As falsificações nelas podem ser encontradas no comodismo ou nas cores de seus trajes de banho. A composição é redimida por toda a distância projetável para se poder encontrar o fundo. As pessoas flutuam à deriva no espaço e isso as habilita a aparecerem fendidas, elas são referências mínimas de todo o oceano possível. Não há terra à vista. No que existe, a pressão é demais para os ouvidos das criaturas convencionais.

6. Os seres apresentados não são naturais, propriamente, mas são baseados em criaturas de verdade do oceano. Ni os observa exóticos e os representa boicotando os ares de cientificidade. Ela quer o fato de parecerem curiosos a qualquer ponto de observação do universo, sem perspectivismo, para mostrar, grandiloquente, que são eles que merecem ser suspendidos no infinito. Os apresentados como peças diminutas têm as suas mecânicas refeitas, como quem recebe uma prótese para insistir na harmonia, ainda que sem funcionalidadeevidente. Até mesmo os nomes de seus possíveis pares naturais são curiosos. Se dentre os peixes, podemos citar o Inimucus Didactylus, que é algo como um dragão chinês feito de areia queimada e algas marinhas, por mais perigoso que pareça, é de rabugice adorável. Claramente remete ao fato de que amigo não faz duplo com inimigo e que inimigo é um equívoco perceptivo, pois dele não se pode chegar perto o suficiente para se identificar, seja lá pelo que for. Entre os que se esgueiram pelo fundo, os nudibrânquios, numa incrível variedade, não podem ser esquecidos. É neles que a artista encontra as cores vívidas que empresta aos peixes. Aquelas famosas colorações de perigo, que são divertidas e felizes. Eles são pequenos moluscos, cujas brânquias são desprotegidas. A hipótese é que a evolução os fez perder suas conchas. Donde, para se evadir a tal melancolia, Ni os dota de toda sorte de traquitanas. Eles se inflam em bolhas para acolher o alimento, mas também secretam ácidos sulfurosos e se camuflam entre coisas. Além de que possuem a sorte de se chamarem Glossodoris Vespa, Miamira Magnifica ou até mesmo Doriprismatica Atromarginata. Oportunidades perfeitas das quais Ni extrai felicidade anômala.

Cesar Kiraly é professor de Teoria Política e Estética no Departamento de Ciência Política da UFF. Autor de Escarificação: ensimesma.
Curador da Galeria Ibeu

Novembro de 2018

Alberto Saraiva - Das Águas
Ana Fay
Alberto Saraiva
Daniela Labra
Cesar Kiraly