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“O invisível é então o que não se pode deixar de ver, o incessante que se faz ver. O ‘ fantasma’ está ali para ocultar e apaziguar o fantasma da noite “ Maurice Blanchot.

 Quincas Borba recusou-os [ sapatos, agasalho, chambre ] com um gesto:  “ Tinha outro ar agora; os olhos metidos para dentro viam pensar o cérebro”  Machado de Assis

 

A infinita abertura que se dá [ criança, poltrona, alguns sapatos, duas mulheres, mais poltronas, pretas?, quatro pés de um mesmo cérebro, outros pés cobertos, sete telas, os vermelhos e os azuis, a sala no espaço entre as pinturas, paredes do lugar da porta à soleira dos pés, mas do chão ] às vistas de quem vê a estranha menina que altiva lhe recebe, caro  espectador(a), não sai ilesa do jogo de conduzir espectros ( cujo apagamento ainda não se evidencia), imobilizada que está na impossibilidade da visão, repouso e privilégio daquilo que nasce de gestos de mãos que desenham. Espécie de pictura poiesis, que diz desde si e faz ecoar a mensagem sem destinatário - os interlocutores são meus olhos – proeza de reta sem curva, rigidez sem sombra, apatia. Pernas dos rostos invisíveis que vêm e vão, cruzam-se e se descruzam em um não-movimento de Figuras cujo fundo monocromático recorta e destaca imagens - fotografias? -  dom da memória. Rastro que vos fala ao silenciar-se; em estado de afasia ela fita do alto da estranha poltrona flashback todo o passado que auto-invenciona o lugar sem-lugar atual da memória: a lembrança de si frente ao esquecimento de si, por dar-se aberta e infinita arremessa o texto flashforward antes mesmo de seu conteúdo sofrer precipitação. Acolhe em palavras aquilo que vê e também o que não vê e pelo que escapa inventa um novo mundo (im)possível. Estranho diálogo este convite amoroso da Ni da Costa ao pensamento. Pensar sobre sua memória - o espaço-entre onde aparece e desaparece a consciência no jogo espectral de dobrar-se sobre si mesma - requer um recuo em direção ao lugar que é ele mesmo a abertura: anterior à visão e portanto anterior à promessa à qual um texto, ao tentar fazer-se texto, está já intrinsecamente ligado . O susto que acomete uma estranha hipótese, acolhe no sobressalto imprevisível do movimento, a estrutura semântica impossível do paradoxo. Um aceno: é já invisibilidade.

 

( Ana Fay, julho 2011 )

Alberto Saraiva - Das Águas
Cesar Kiraly
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